Duas ou três coisas sobre o uso do Travelling


Logo no início do cinema havia uma vontade coletiva dos cineastas de fazer a câmera se mover durante os planos. Foi preciso os ingleses (criadores das estradas de ferro)  empregarem o mesmo sistema das ferrovias em cinema para que as câmeras tivessem estabilidade e fluidez durante os planos filmados sobre um carrinho que corria, movido pela força humana, sobre os trilhos. Foi uma verdadeira revolução na linguagem cinematográfica. Passa então existir um cinema antes e depois do movimento de travelling. O equipamento deu então nome aos planos, não importando que enquadramento empregado, em movimento. A narrativa se acelera, ganha em dramaticidade e torna o espectador mais participativo do espetáculo audiovisual. Hoje achamos natural a câmera mover-se durante a captação de um plano, esteja ela nas mãos do operador, sobre qualquer tipo de veículo ou sobre não importa que tipo de equipamento de maquinaria que faça ela mover-se (steadicam, dollie, pee wee ou o próprio travelling). Porém, percebemos que o seu emprego aleatório pode atrapalhar o discurso visual. O plano em travelling tem como função acompanhar um personagem. Esteja ele conversando com outra pessoa ou sozinho dentro do ambiente. O espectador vai junto com o personagem nesta trajetória. A câmera pode acompanhar paralelamente o personagem, avançando em travelling à frente por cima do seu ombro (Over the shoulder) ou recuando (travelling à ré). Mas uma das formas mais interessantes de colocar o espectador no seio das ações durante o deslocamento é empregar uma posição de câmera subjetiva. A câmera ocupa o lugar do ator e faz o deslocamento como se fosse ele. Entra nos lugares, olha nas direções que o personagem olhou. Sem esquecer que para que o espectador compreenda o que acontece deve empregar, antes ou depois do plano subjetivo, um plano de quem se desloca (o personagem). Mas além dos deslocamentos o emprego do travelling serve para pontuar uma emoção. Por exemplo: um casal discute calorosamente e o casal rompe e se separa. O namorado afasta-se deixando para trás a namorada solitária. Podemos partir de um Close Up da namorada num longo travelling a ré até atingirmos um enquadramento dela em Plano Geral. Em outras situações podemos empregar o movimento de câmera (em travelling à frente) para pontuar um detalhe da ação, dar ênfase a um objeto ou interiorizarmos uma emoção do personagem empregando o travelling à frente. O emprego de movimentos circulares de câmera, podem ser empregados em planos de duelos entre dois personagens, para criar enlevo num abraço, para expressarmos sensação de embaraço do personagem na cena. O inicio de situações que desejamos partir de um plano geral para situar o personagem e detalharmos ou darmos ênfase progressiva a um personagem, empregamos o travelling à frente, em diagonal. Partindo de um plano médio ou geral do local com o personagem ao fundo que caminha no espaço dramático do plano até atingirmos um plano americano ou close up. As montagens paralelas, de cenas de perseguição em uma sucessão de planos em traveling (a ré, a frente, paralelos) do perseguido e do perseguidor, passando nos mesmos espaços, um após outros. Enfim, milhares de exemplos estão em bons momentos de muitos filmes da cinematografia mundial. É só revê-los e observar, enriquecendo o seu discurso quando tiver de narrar uma cena em movimento, com bastante precisão e conteúdo dramático.            

Jorge Monclar – diretor de fotografia






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