A PROPÓSITO DOS FILMES PARA SERIADOS (II)


Os roteiros de seriados para serem exibidos em emissoras de televisão, funcionam em duas estruturas básicas: a que narra em capítulos e a que narra em episódios. As histórias narradas em capítulos tem como característica não completar a historia como um todo. A cada capítulo, com trama e tema próprio, avança acrescentando fatos e personagens novos. A historia ou enredo vai sendo contada de forma fracionada, a cada capítulo. Tal qual são as estruturas das telenovelas atuais, mas com um avantajado numero de capítulos. O enredo e os personagens vão sendo construídos e compreendidos a cada capítulo da série. Esse tipo de estrutura surgiu quando ainda as emissoras de televisão engatinhavam em suas transmissões. Não havia o vídeo tape para gravar previamente e editar a posterior as imagens. Tudo era apresentado ao vivo, em direto. Os mais célebres programas de dramaturgia (ou Broadcasting) eram os tele-teatros, com muitos incidentes de produção e improvisações. As primeiras séries de fato, os capítulos eram captados em negativo cinematográfico, que permitia a montagem das cenas. Tinham sido criados primeiramente para as salas de cinema em todo o mundo. Eram exibidos antes da projeção dos filmes de longa-metragem. Um complemento da programação das seções. O filme era apresentado casado com a atração principal durante uma semana naquela sala de cinema. Historias narradas em capítulos, com duração em torno de 15 a 30 minutos (dependendo da duração do filme principal de longa-metragem apresentado). Mais tarde, essas durações foram modificadas em função da grade de programação das emissoras em todo o mundo. Uma das mais célebres séries cinematográficas foi: “O Último dos moicanos” e a de “Bat Masterson” com sua famosa canção assobiada pelos jovens (“No velho Oeste ele nasceu, e entre os bravos se criou...”). Os enredos de cada capítulo nunca se concluíam e continuavam no capítulo da próxima semana. Estas séries em capítulos, transformaram os espectadores mirins ou adolescentes em um público cativo das salas de cinema, sobretudo nas sessões de dias de pouco publico e a preços promocionais nos ingressos. Várias séries deste período transformaram-se décadas mais tarde, em filmes de longa-metragem de sucesso. Os seriados a capítulos transformaram-se em uma alternativa de mercado de entretenimento para os produtores cinematográficos destas séries. Os roteiros escritos de forma que nos minutos finais se criasse uma cena de grande suspense ou impacto dramático, que não se concluísse, ficando a resposta ou conclusão daquela trama para o próximo capítulo da serie. Isso, durante muito tempo trouxe de volta o espectador das salas de cinema para assistir todos os capítulos da série. E, mais tarde, na fase mais adulta da televisão, registrando as imagens em VT ou outros suportes digitais, as series a capítulos voltaram a ocupar grande parte das telinhas (a cabo ou de sinal aberto). Os seriados narrados a episódios tem como característica apoiar-se numa estrutura central básica e a cada episódio contar um enredo, porém os enredos terminam e se concluem no mesmo dia da apresentação daquele determinado episódio. São organizados em cinco, treze ou 24 ou 48 episódios por temporada. Podem ter 15, 30 ou 60 minutos de duração por episódio, com as marcações dos brakes (interrupção para inserção das propagandas e filmes publicitários). A narrativa do roteiro possui uma estrutura central de elenco que pode fazer parte de uma família, de um grupo de agentes da lei, um plantão de médicos ou coisa similar. E a historia do episódio acontece dentro dessa estrutura permanente, que não se desfaz. Tal qual, as comédias de situação que se passam em um ou dois cenários permanentes da série. Uma das mais antigas comedias de situação exibidas no Brasil, com esse tipo de narrativa serializada a episódios, é “A Grande Família” de Oduvaldo Viana Filho e Armando Costa. Série produzida e veiculada pela Rede Globo de Televisão. Nos primórdios da televisão, quando ainda não havia sido inventado o vídeo tape, a mais famosa e de grande sucesso foi a serie policial “Câmera Um” dirigida por Jacy Campos. Existem seriados semelhantes de produção estrangeira tal qual: “Eu, eles e a patroa”, “House” e muitas outras. Todas com a mesma estrutura, apoiadas num grupo central de personagens. Muitas vezes com a participação episódica de um personagem periférico: a família (uma avó, sogra, um amigo ou agregado),ou o personagem mudando de uma série para outra é o gênero ou universo da série, como por exemplo: a série de mafiosos criada e dirigida por David Chase: “A família Soprano”. Produzida pela HBO e distribuída pela Warner Vídeo, em suas seis temporadas (78 episódios) o núcleo central: a família Soprano propriamente dita (a Sra. Soprano, os filhos adolescentes, a avó) e o chefe da família, o Sr. Tony Soprano, o Capo são o núcleo da trama. Todos esses membros da quadrilha são a sua “famiglia” periférica. Esses personagens são muito bem definidos no roteiro: Tony Soprano é um típico empresário norte-americano de meia idade: tem uma esposa responsável e que anda dentro da linha, segundo os padrões da sociedade local, uma filha adolescente, burgueziinha, não muito obediente e o caçula Anthony Jr. muito parecido com o pai. E a avó do menino, mãe de Soprano que se recusa ir morar em um asilo para velhos. Nada fora do normal, não fosse o fato do chefe da família, Tony Soprano, ser o chefe de uma outra família: a máfia: um grupo de menor importância que atua em New Jersey, nos setores de empreiteiros que prestam serviços públicos de lixo e na construção civil para a Prefeitura. A cada episódio da série cinematográfica um dos membros da família Soprano se torna o personagem principal ou então, se relaciona com um dos personagens da “famíglia” periférica (o bando). A estrutura central dos Sopranos sempre se mantêm, não importa o enredo que é narrado a cada episódio ou fato abordado com principio meio e fim no próprio episódio apresentado naquele dia. E elas quando tem sucesso de público, tem longa vida nas telas. A série “House”, criada por David Shore, ficou oito temporadas no ar, apresentando 177 episódios (estreou em 2004, no Brasil a serie produzida pela Fox, foi exibida pelo Universal Channel). Um grupo de médicos trabalha no gênero Hospital, onde Hugh Laurie vive o irônico Dr. Gregory House, um gênio do diagnóstico, um homem arrogante, viciado em analgésicos e difícil de lidar. A série conquistou dois Globos de Ouro e projetou dois atores da série: Huge Laurie e Olivia Wilde que se projetou no cinema depois de encarnar a médica Thirteen na serie. Tivemos também no Brasil nossas séries de sucesso, tais como “O Vigilante Rodoviário” e “Jerônimo,o herói do sertão” oriundos das ondas do rádio (e a famosa canção “Quem passar pelo sertão, vai ouvir alguém falar, do herói dessa canção, o Jerônimo vencedor...”). “Plantão de Polícia” marcou época nas telinhas das TVs brasileiras. Atualmente a Rede Globo, na esteira do sucesso do tema apresentado pelo campeão nas bilheterias de cinema “Tropa de Elite”, apresenta a série: “Força Tarefa,” escrita por Marçal Aquino e Fernando Bonassi e dirigida por José Alvarenga Junior e Mário Marcio Bandarra. Não importa a estrutura narrativa adotada (a capítulos ou a episódios,) as séries cinematográficas (ou em outros suportes ou tipos de câmeras) no estágio atual, tornaram-se um grande mercado para artistas e técnicos com amplo espaço para se desenvolver nas novas mídias (emissoras de TV a cabo, emissoras abertas, internet, nas redes de telefonia e etc...) com um vasto público mundial cativo, ávidos de conteúdo de entretenimento.
Jorge Monclar – diretor de fotografia






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